A área natural do Mato Grosso do Sul é composta por principalmente dois biomas, o Pantanal, que se estende principalmente pela área noroeste do estado, e o Cerrado, presente em todo o território sul-mato-grossense. Além desses dois biomas, é possível encontrar na vegetação espécies que fazem parte de outros quadros naturais, como da Amazônia e da Mata Atlântica. A Fundação Neotrópica do Brasil é uma Organização Não Governamental (ONG) de 28 anos, que tem como objetivo promover a conservação de ambientes naturais no Mato Grosso do Sul, principalmente na região da Serra de Bodoquena, área natural que une os biomas Mata Atlântica, Cerrado e Pantanal. O assunto foi tema da entrevista com o superintendente Executivo da Neotrópica, Rodolfo Portela, que é  Gestor Ambiental e Mestre em Ciências e Tecnologias Ambientais.  A Fundação possui um objetivo claro, que é promover a conservação da vida da terra. Seus principais projetos trabalham com a restauração e monitoramento de áreas degradadas, formação de brigadas com as comunidades tradicionais que moram perto das unidade de conservação, monitoramento biológico de bacias cênicas e conservação de espécies animais da região.

Logo da Fundação Neotrópica. Foto divulgação.

O Pantanal ganha muitas doações para ajudar na sua conservação? 

A Neotrópica atua de maneira mais forte onde têm as nascentes do pantanal, são os rios que formam a planície pantaneira. Mas as instituições que trabalham de fato com a conservação do pantanal, já tem uma outra dinâmica. Agora que teve todo esse impacto ambiental causado pelas queimadas, a gente viu que teve uma comoção bem grande das pessoas de ver mesmo essa verdadeira tragédia. Eu vi que algumas instituições receberam bastante dinheiro de doação de pessoas. A Neotrópica também ganhou bastante, porque nós trabalhamos também com combates de incêndio aqui na região da Serra da Bodoquena. Então recebemos doações de pessoas que estavam preocupadas, aqui da região mesmo. Também algumas doações internacionais que usamos para melhorar nossa estratégia de combate ao incêndio nessas áreas de cabeceira do pantanal, que são áreas importantes para recarga da bacia pantaneira. Mas de fato, com Pantanal mesmo, infelizmente, eu não posso afirmar com precisão o que foi doado.

Qual é a maior preocupação que os profissionais interessados e comprometidos com a conservação da natureza, principalmente aqui no Mato Grosso do Sul, têm hoje?

É a conversão de áreas naturais para atividades humanas. Por exemplo, da Mata Atlântica hoje sobram menos de 7%, o Cerrado, se eu não me engano, já foi 60%. O Pantanal tem 80% conservado, e isso é uma coisa ótima pra um bioma, por isso que nós devemos unir esforços para preservar essas áreas. A pior preocupação é a destruição das áreas conservadas e também as pressões dessas áreas. Tem áreas que são declaradas como protegidas, os parques e as reservas, que nos últimos anos têm sofrido grandes ameaças por parte de um setor que vê essas áreas protegidas como uma ameaça aos seus negócios, uma ameaça à expansão, e na verdade não são. Se a gente fizer uma comparação, as áreas protegidas não chegam a 20% do território nacional. Então é a degradação a nossa maior preocupação, e isso faz com que a gente invista em algumas estratégias para conservação, que é, por exemplo, a criação de áreas protegidas, que são um modelo eficiente de conservação para o nosso contexto. Por isso que aqui em Bonito a gente tem uma preocupação muito grande com o desmatamento.

A maioria das notícias sobre o ambiente natural  do Mato Grosso do Sul hoje são sobre as queimadas, e depois sobre o desmatamento, sendo assim, além das queimadas, quais são as outras grandes ameaças que o pantanal enfrenta hoje? Existe alguma ameaça que a população ainda não esteja tão ciente de sua existência e gravidade? 

Eu colocaria o desmatamento em primeiro lugar, porque em alguns ecossistemas o fogo é um agente natural. O problema dos incêndios florestais que estamos tendo não é o fogo, é a proporção disso, é a escala. São áreas gigantescas, e aí é complicado, porque quando você tem o fogo natural ele também ocorre em períodos diferentes, pois ele está relacionado com uma descarga elétrica dos raios, que acontece na época de chuva. Então o fogo é um agente natural. Ele foi moldando esses ecossistemas. O Cerrado, por exemplo, tem várias espécies que desenvolveram estratégias para resistir ao fogo, e outras espécies que precisam desse agente para brotarem. Então nessa lista eu só inverteria e colocaria o desmatamento em primeiro. Outros problemas que nós temos são a contaminação dos corpos hídricos. Temos alguns projetos que fazem esse monitoramento. Infelizmente, estamos constatando alguns poluentes e isso ainda está sendo estudado de maneira profunda para conseguirmos ver as fontes. Em breve a gente vai fazer uma divulgação.  

A caça é um problema que tem muito ainda, assim como a pesca predatória e o tráfico de animais. Temos muito problema também com o uso de pesticidas proibidos que entram de maneira ilegal no país, por ser fronteira.

Projeto Papagaio Verdadeiro. Foto divulgação.

Ovos de Papagaio Verdadeiro. Foto divulgação.

O ecoturismo no pantanal vem se tornando cada vez mais popular entre os brasileiros, quais são os pontos positivos e negativos dessa conquista? 

Todas as atividades humanas têm impactos, positivos e negativos, o que a gente tem que colocar na balança são os benefícios disso, se o ecossistema vai ter uma resiliência, se ele vai conseguir se recuperar depois de algum distúrbio. E o ecoturismo traz bastantes impactos positivos, se ele for feito de maneira ordenada. No Mato Grosso do Sul, tem o voucher único, aqui em Bonito, e a gente tem uma série de legislações estaduais específicas para regular o setor de ecoturismo, e isso foi normatizando a atividade. Por isso que Bonito é sempre premiado como um dos melhores destinos mundiais de ecoturismo, então de fato isso traz para a cidade e para as pessoas uma melhor qualidade de vida, isso melhora a distribuição de renda local. Observando os municípios vizinhos, a gente percebe que Bonito é um ponto fora da curva. Ter o benefício desses serviços ecossistêmicos, e cultural, ir numa área natural, tomar um banho de rio, comparando a municípios vizinhos, Bonito é destaque. E eu vejo que o turismo traz nessa balança, em Bonito, muito mais impactos positivos do que negativos. Claro que eu estou me referindo a esse turismo de natureza, que é desenvolvido aqui na Serra de Bodoquena e no Pantanal também. Eu trabalho com conservação há quase 15 anos e faz pouco tempo que eu tive a oportunidade de ver uma onça na natureza e foi um momento único que eu vou me lembrar pra sempre. Me deu um sentimento muito bom ali. Então eu acho que se todo mundo tivesse a oportunidade de viver isso pelo menos uma vez na vida a gente teria outra relação com o meio ambiente.

O que os cidadãos brasileiros podem fazer para ajudar na conservação da natureza?
Primeiro de tudo a gente tem que conhecer. A gente tem que se permitir ter essa experiência. A gente sabe que o turismo não é democrático, principalmente aqui em Bonito, por conta do preço mesmo, mas tem algumas atividades que são acessíveis. Está havendo uma movimentação no estado do Mato Grosso do Sul para a abertura dos parques estaduais e das áreas protegidas públicas. O Parque Nacional da Serra da Bodoquena já tem um programa de uso público com um valor mais acessível, em que você consegue visitar e conhecer áreas que pessoas do mundo inteiro vem conhecer. O nosso país tem áreas turísticas fantásticas e que as pessoas não conhecem muito. O segundo passo é a gente ter um pouco mais de pensamento crítico, e aí já vem com uma parte que é pouco investida no brasileiro, que é a educação. Aí já entra física, química e biologia, o que a gente aprende no ensino básico. Então tudo passa pela educação. Você tem que ir lá ver, você tem que se educar, e a partir daí a gente tem que ter consciência de que as nossas atitudes refletem. Às vezes a pessoa pensa que “Eu não vou fazer diferença nesse contexto”, mas uma doação que você faz motiva a pessoa que está trabalhando por aquele fim. Você influencia outra pessoa a também participar dessa causa. Nesse processo, a rede social faz um trabalho fantástico, que é promover o engajamento das pessoas. A gente não pode ser neutro. Quando a situação está ruim a gente precisa assumir uma posição. O meio ambiente é para todos, está na nossa constituição: Todos têm o direito a ter um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Então nós precisamos de ar puro, água limpa e de um solo agricultável. Tudo isso vai proporcionar um bem estar, e a gente precisa ter uma relação com a natureza. Então precisamos assumir algumas posições. Desse jeito, eu acho que o terceiro passo é pensar muito bem em quem a gente vai votar. Colocar pessoas comprometidas com a causa ambiental. Candidatos que vão trabalhar pelo bem coletivo, não são candidatos que têm uma propaganda. A gente tem que votar com consciência. Temos que começar a se educar, e a partir desse momento que vamos começar a se sensibilizar. O planeta é a nossa casa e eu acho que as pessoas foram se afastando muito, ficando num ambiente muito artificial, que são as cidades, isso por conta do êxodo rural e do nosso modelo econômico, mas as pessoas tem que conhecer essas áreas naturais para poder conservar e  apoiar quem trabalha por essa causa. O ser humano precisa se integrar à natureza, usar as tecnologias e inovação para ser menos impactante no consumo também. Existem países que consomem muito, como os Estados Unidos e a Europa. Eles precisam fazer a parte deles também, que é diminuir as emissões. É uma questão global, não adianta conservar só aqui e só ali, tem que ter áreas conservadas em vários lugares para nós termos uma condição ambiental boa.

 

Projeto Observ’Água. Foto divulgação.
Foto divulgação.
Foto divulgação.