Capital tem registrado umidade mínima de 12%, bem abaixo do recomendado pela OMS

“Essa poeira chateia a gente”, conta uma moradora do Jardim Noroeste sobre enfrentar o tempo seco em um bairro sem asfalto. Segundo a dona de casa, Viviane Oliveira, de 37 anos, seus filhos são os mais afetados pela baixa umidade e terra, com crises respiratórias, tosse e sangramento nasal. Viviane se mudou para o Noroeste há um ano com seus dois filhos: José Arthur, de 12 anos, e João Paulo, de cinco anos. 

Viviane Oliveira, de 37 anos, moradora do bairro Jardim Noroeste (Foto: Bruno de Oliveira)

Campo Grande é uma das capitais brasileiras que enfrenta, desde o começo de setembro, altas temperaturas, queimadas e umidade do ar entre 20% e 12%, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os níveis de umidade mais adequados para a saúde humana são entre 50% e 60%. Abaixo disso, pode ser prejudicial à saúde, afetando a respiração, o sistema imunológico e as atividades diárias. Contudo, o combo poeira e tempo seco torna a situação mais grave.

Viviane relata que, em 2023, seus filhos tiveram a saúde relativamente deteriorada por conta do tempo seco e poeira. Mas, com o Brasil passando pela seca mais intensa da história desde 1950, conforme o relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a experiência em 2024 tem sido “a pior possível”, principalmente para seus dois pequenos. 


Viviane e seus dois filhos: João Paulo, no centro, e José Arthur, na direita (Foto: Bruno de Oliveira)

Em ambos o primeiro sintoma foi a tosse seca. No entanto, José Arthur, o filho mais velho de Viviane, tem um problema recorrente de sangramento nasal e rinite – uma doença inflamatória das mucosas do nariz que pode ou não ser alérgica, segundo Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).

“Devido ao tempo seco com a poeira vem o sangramento no nariz dele. Foi o que o otorrino me explicou. É uma sequela da rinite que vem com o tempo seco e a poeira. Se ele vai pra escola a pé, no caminho ele toma poeira, o nariz chega seco lá e sangra tudo porque machuca”, esclarece a dona de casa.

O Jardim Noroeste é o bairro com menor quilômetro (km) de pavimentação de Campo Grande. São apenas 11,564 km pavimentados contra 97,555 km de ruas sem pavimentação. Isso equivale a 11% de km de asfalto do bairro. Os dados são da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep) / (Foto: Pedro Santos)

Ao lidar com todas essas dificuldades do clima e da poeira que afetam tanto a sua saúde quanto a dos seus filhos, a dona de casa conta que se sente “impotente” e “chateada”. Apesar de seu esforço e cuidado com seus filhos, com as tarefas domésticas, realizar idas e vindas das consultas médicas e gastos com medicações, é algo que foge do seu controle. 

“Eu fico muito sentida, chateada e triste ao ver os meninos doentes. Algumas coisas eu não consigo resolver, por mais que estejam medicados, existe um tempo para surtir os efeitos do remédio. É aí que eu vejo o sofrimento deles, com a tosse, febre. O José Arthur teve febre de arder e não tem o que fazer. Tem que esperar […] Você acorda com o calor e é poeira por onde você for. A poeira chateia a gente. Essa bagunça e sujeira me chateia, ainda mais quando afeta a saúde deles. É questão de tempo. Eles estão bem e, de repente, zangam os dois. Essa correria de ir no médico, no farmacêutico, tomar remédio, tomar chá, rinite, alergia é tudo por causa da poeira”, expressa Viviane.

Segundo Viviane, queimadas criminosas ocorrem diariamente no Noroeste. Na Capital sul-mato-grossense, entre os meses de janeiro e agosto de 2024, foram registrados 845 casos de incêndio, de acordo com Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Mato Grosso do Sul (Foto: Bruno de Oliveira)

Cuidados e Prevenção

Para minimizar os efeitos adversos do calor e da seca, a Secretaria de Estado de Saúde (SES) recomenda:

Hidratar-se constantementeBeber água regularmente é essencial, principalmente para crianças e idosos que podem não perceber a necessidade de se hidratar. Ofereça líquidos diversas vezes ao dia e monitore o estado de hidratação.
Evitar atividades físicas nos horários mais quentesPraticar exercícios ao ar livre deve ser evitado entre 10h e 16h, quando as temperaturas e a radiação solar estão mais elevadas.
Cuidar da pele e lábiosUse hidratantes ricos em emolientes logo após o banho e durante o dia. Para os lábios, um protetor labial ajuda a prevenir rachaduras e desconfortos.
Protejer os olhosO uso de lágrimas artificiais pode aliviar a irritaçãoocular em ambientes secos
Evitar banhos quentes e longosPrefira banhos curtos e frios para não remover a oleosidade natural da pele, que ajuda na proteção contra o ressecamento.
Umidificar os ambientesUtilize umidificadores de ar para manter a umidade em níveis confortáveis (entre 40% e 60%). Essa prática alivia o ressecamento das vias respiratórias e da pele.
Ventilar os ambientesEmbora a umidificação seja importante, garantir a circulação de ar fresco evita o acúmulo de alérgenos e melhora a qualidade do ar interno.
Soluções salinas nasaisO uso de soro fisiológico nas narinas ajuda a manter as vias respiratórias umedecidas, prevenindo irritações.
Cuidados com grupos vulneráveisCrianças e idosos devem ser monitorados e estimulados quanto à hidratação e ao conforto em ambientes secos.

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