Ela joga bola desde os 10 anos, mas sempre encarou o esporte como brincadeira. Foi durante um campeonato no 7º ano do Ensino Fundamental que o passatempo virou paixão, e a distração virou dedicação. Oito anos separam o paralelo da diversão para o momento de estar no time de futsal feminino mais forte do Mato Grosso do Sul. 

Camila Dias Rodrigues é popularmente conhecida como Camilinha, tem 18 anos, nasceu e cresceu no interior do Mato Grosso do Sul, no Município de Ribas do Rio Pardo. A cidade fica a 102 quilômetros da Capital do Estado, distância percorrida diariamente para fazer a faculdade de Educação Física e treinar futsal.

Sobre o esporte, “Foi literalmente paixão à primeira vista, no segundo ano que viajei e meu último na categoria juvenil, fui como capitã do time, e aquilo me deixou com mais anseio ainda de querer ser profissional”. disse a atleta.

Mas, apesar do amor pelo futsal, a situação com os pais era difícil no começo, os mesmos não gostavam da ideia da filha jogar futsal e em algumas ocasiões ela foi impedida de participar de competições escolares. Mas isso nunca foi um problema, a falta de apoio  dos pais foi suprido por amigos e, principalmente, pelo avô Geraldo, que infelizmente morreu em 2021. 

O “Vozin”, como era carinhosamente chamado por Camila, foi sua fonte de motivação desde o princípio, o apoiador número 1, mas a atleta lembra de uma promessa que fez para ele: “Lembrei que dois meses antes dele falecer, ele me fez prometer que não iria desistir do meu sonho, e, desde então, levo mais a sério ainda esse propósito”.

Camila durante uma partida de futsal. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em 2023, um sonho da garota finalmente virou realidade. “No ano que entrei na faculdade, fiz a seletiva para o time da UCDB, e o sonho que na minha cabeça era tão distante, estava mais perto do que eu imaginava, estar em um elenco de alto rendimento é desafiador, mas é gratificante demais” comenta a acadêmica. 

O SERC/UCDB, equipe onde Camila é representante e treina semanalmente, tem suas dificuldades. A jogadora conta um pouco da sua rotina para conseguir acompanhar e jogar pelo time, “acordo todos os dias às 4h30 da manhã para vir para faculdade estudar, acabo passando o dia na faculdade, e treino a noite, das 19h30 às 21h30. Quando dá 22h30 eu volto pra minha cidade, chego às 1h00 da manhã, e, no outro dia, é a mesma pegada de novo. É bem desgastante e cansativo, mas eu não largaria essa rotina por nada”. 

Mesmo sendo jovem e estando no início da sua jornada no esporte, Camila já enfrentou dificuldades para seguir seu sonho, “Em setembro do ano passado, o time de campo aqui de Ribas estava participando do estadual, e fomos jogar uma partida de ida em Campo Grande, contra a Portuguesa”. Camila comenta que sempre utilizou seu óculos, algo que, surpreendentemente, não atrapalha seu alto desempenho e habilidades com a bola. Durante esse jogo em específico, os narradores do evento insultaram aquilo que menos atrapalha ela, os mesmo apelidaram a menina de diversos nomes. “Me chamaram de oclinhos, falaram para eu tirar o óculos pra enxergar melhor, entre outras coisas. Confesso que fiquei bem chateada, porque ninguém gosta de virar motivo de piada”.

Apesar da chateação, portas foram abertas depois do ocorrido, a TV Morena entrou em contato com a atleta, o caso foi retratado em um dos maiores programas de esporte do MS, a equipe de narradores, após ser exposta, emitiu uma nota pedindo desculpas, e o que foi um período triste, fez a menina se tornar garota propaganda da sua Universidade, um comercial disponível para todo o país. 

Camila se dedica todos os dias para ser uma jogadora melhor, e se tornar uma grande atleta, apesar da rotina corrida e não ter tempo para muitas atividades de lazer durante a semana, é perceptível o orgulho que ela sente de sua trajetória, e em meio a conversa, ela sempre agradece as oportunidades que teve na vida, “É um honra estar entre as melhores”, diz Camila. 

(Foto: Arquivo Pessoal)