Mesmo superando as provas psicológicas, práticas e teóricas, o grande entrave torna-se manter-se calmo e atento ao conduzir um veículo pelas ruas da Capital
Mesmo após o difícil e estressante processo para ser habilitado, muitos novos motoristas sentem-se desafiados diariamente na rotina do trânsito de Campo Grande. Ter liberdade de ir e vir, sair quando quiser e como quiser são só alguns dos motivos que levam as pessoas ao desejo de tirar a carteira de habilitação.
É um sonho que muitos jovens e adultos têm ao completar 18 anos, sendo a idade mínima para ser habilitado no Brasil.

Passar pelos desafios de conseguir a carteira de habilitação não encerra a rotina estressante para os novos motoristas de Campo Grande. Mesmo superando as provas psicológicas, práticas e teóricas, o grande entrave torna-se manter-se calmo e atento ao conduzir um veículo pelas ruas da Capital. De janeiro de 2018 a agosto de 2023, foram realizados 308.631 exames práticos, com 178.302 novos motoristas conquistando a tão sonhada permissão para dirigir, e neste mesmo período,130.386 não conseguiram aprovação nas categorias AB e B, e provavelmente, retomaram o processo de habilitação.
Recém-habilitada, a estudante Giovanna Souza conta que a maior dificuldade que sentiu foi em relação aos outros motoristas:
Por mais que você saiba o que fazer, o nervosismo toma conta. Às vezes, você deixa o carro morrer. E aí, tem gente que não tem paciência e buzina, sabe? Não consegue esperar cinco segundos para pessoa ligar o carro e sair. Então, esse, pra mim, foi o meu maior desafio.
Em cinco anos, mais de 130 mil candidatos não conseguiram a aprovação na prova prática, segundo dados do Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito). Para conduzir um veículo legalmente, as categorias iniciais são A (Motocicleta), B (Carro) e AB (Carro e Moto). A mais procurada no Mato Grosso do Sul é a “B”, com 78.002 habilitações emitidas nos últimos 12 meses.
Durante as aulas práticas, alguns pontos importantes do dia-a-dia não são exercitados, como, por exemplo, a direção noturna. A jovem condutora, Mariana Scaramussa, conta que se sente insegura durante este período do dia:
Eu evito ao máximo dirigir à noite. Acho muito perigoso porque tem muita gente bêbada e muita gente que, no desespero de chegar rápido em casa, fura sinal, não para nos lugares obrigatórios, dirige em alta velocidade. Não gosto, fico muito insegura e prefiro evitar ao máximo para não passar por nenhum acidente.
Mariana também comenta que a prática foi a chave para ganhar mais confiança na direção:
Eu sempre me senti muito segura no volante. Claro, no início com um pouco mais de nervosismo, pois eu estava no começo, mas sempre fui segura de que eu sabia as leis de trânsito e que de qualquer maneira estava fazendo certo. A gente hesita um pouco em certas situações porque é normal e sempre achamos que quem dirige há mais tempo sabe mais que a gente, o que nem sempre é verdade! Praticar, dirigir todos os dias faz ganhar uma segurança enorme porque ajuda você a conhecer o veículo e o fluxo dos motoristas das vias que você anda. Sem contar que manobras que você não tem tanta facilidade você acaba ganhando quando dirige todos os dias.
Possíveis adversidades
A psicóloga Milena Lima listou alguns quesitos na qual os jovens condutores podem enfrentar durante a transição do processo de habilitação para as ruas, por poder ser um desafio para o emocional e psicológico.
- Ansiedade: é comum entre os novos motoristas, especialmente nos primeiros meses após a obtenção da carteira de habilitação. Preocupações sobre cometer erros, lidar com o tráfego intenso ou enfrentar situações de direção desafiadoras que podem desencadear ansiedade.
- Medo: O medo de se envolver em acidentes de trânsito é uma preocupação real para muitos novos motoristas. Isso pode resultar em hesitação e nervosismo ao volante.
- Pressão social: Alguns recém-habilitados podem sentir pressão para serem motoristas perfeitos, especialmente se tiverem amigos ou familiares críticos em relação à sua habilidade de dirigir. Isso pode aumentar a ansiedade e a pressão emocional.
- Frustração: Aprender a dirigir envolve um aprendizado contínuo, e é normal cometer erros no início. No entanto, a frustração consigo mesmo por cometer erros pode ser emocionalmente desafiadora.
- Autoconfiança: A construção da autoconfiança ao volante leva tempo. Alguns condutores podem lutar com a autoestima relacionada à direção, especialmente se tiverem tido experiências negativas ou acidentes no início.
Como superá-los?
Para auxiliar no enfrentamento destas questões emocionais, a profissional trouxe alguns recursos que podem ser utilizados para reduzir ou inibir esses desconfortos.
- Aceitação de Erros: Lembre-se de que cometer erros é parte do processo de aprendizado. Se você cometer um erro enquanto dirige, não se culpe excessivamente. Em vez disso, use-o como uma oportunidade de crescimento e aprimoramento.
- Autoconhecimento: Reflita sobre seus sentimentos em relação à direção e identifique quaisquer ansiedades ou medos. Esteja ciente de suas próprias limitações e saiba quando é necessário pedir ajuda ou orientação.
- Empatia e Compreensão: Ao compartilhar a estrada com outros motoristas, pratique a empatia. Reconheça que todos estão sujeitos a cometer erros e, às vezes, ocorrem situações estressantes. Isso pode ajudar a reduzir a frustração e a raiva nas situações de trânsito.
- Ignore provocações: Se outro motorista estiver tentando provocá-lo, ignore-o. Não reaja a gestos, buzinas, agressividades e/ou comentários desagradáveis. Concentre-se na sua segurança e no seu trajeto.
Projeto de lei 1223/2023
Tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei, o PL 1223/2023, que propõe a obrigatoriedade de utilizar uma placa indicativa de motorista recém-habilitado por um período de quatro meses. O material a ser utilizado será autocolante de ampla visibilidade, e de distribuição aos alunos aprovados por parte das autoescolas.
A medida poderá ser obrigatória aos portadores das categorias A, B e A/B que englobam motos, carros de até oito lugares, e até mesmo táxis. Em caso de descumprimento, uma multa será aplicada. A proposta é de autoria do deputado José Nelto, de Goiás (PP/GO), e aguarda o parecer do relator na Comissão de Viação e Transportes.