Pouco se fala sobre o bem estar e a saúde daqueles que cuidam das pessoas, os médicos, enfermeiros e todos os outros cargos que fazem parte de uma equipe dentro de um hospital. A saúde mental e uma boa disposição no ambiente de trabalho fazem diferença no dia a dia do profissional e trazem benefícios tanto para a vida pessoal quanto para a rotina dentro do trabalho. Mas será que essas pessoas estão cuidando de sua saúde e dando sua devida importância?

Técnica de Enfermagem há 18 anos, Sabrina Fucina, de 43 anos, trabalha na Comissão de Doação de Órgãos do Hospital Regional em Campo Grande. Apesar de trabalhar nessa área, a profissional reconhece que ela e os companheiros são relapsos com a própria saúde. A técnica também frisou a tamanha importância de estar sempre bem disposta para sua semana, que é corrida e exige uma boa disposição mental, e para que isso aconteça tem como prioridade manter uma rotina tranquila dentro de seu lar. Contudo, Sabrina não se consulta com nenhum psicólogo ou qualquer outro especialista, mas entende que é necessário que todos cuidem do psicológico. 

Porém, nem todos os períodos são fáceis. Sabrina relata que na época da pandemia do Covid-19 teve que ser muito forte: ‘’Vi histórias que fariam as pessoas valorizarem mais a vida, tive que me afastar dos meus filhos e, ao mesmo tempo, o medo, de ter alguém da minha família entrando pela porta do hospital existia em mim’’, diz Sabrina. Ela alega que, na época, a própria e os companheiros de serviço ficaram apreensivos  pois estavam lidando com algo novo e assustador. 

Por 19 anos, Terezinha Sabino, de 54 anos, trabalhou como técnica de enfermagem, mas precisou se afastar do lugar que amava e atuava com brilho nos olhos, na época da pandemia. Ela conta que o hospital era sua segunda casa, mas que num piscar de olhos tudo mudou e foi se transformando em um pesadelo. Os andares enchiam e as vagas no Centro de Terapia Intensiva estavam esgotadas. A técnica ainda disse que começou a sentir fortes dores na cabeça, sudorese intensa, náuseas, taquicardia e mesmo assim permaneceu trabalhando. 

Diante dos fatos, Terezinha passou a se preocupar com seus filhos, estava com medo do que poderia acontecer com eles, pois nesse meio tempo ela acabou perdendo alguns colegas para o Covid: “Só de lembrar já estou chorando! Chegou um dia que passou de todos os meus limites e não aguentei mais, fui para casa e eu só sabia chorar”, relata Terezinha. Como consequência, ela se consulta com um médico pessoal até os dias atuais, e mesmo cumprindo sua rotina com os remédios  as crises continuam afetando a vida dela: “ Já fazem três anos que a pandemia mudou minha vida, não consigo ir a um hospital sozinha porque eu passo mal”, disse Terezinha com lágrimas nos olhos.

A vida adulta exige que os trabalhadores passem por cima dos seus problemas e sigam em frente, e como efeito disso as pessoas acabam se esquecendo de cuidar do seu corpo, sua mente, que são as principais ferramentas do trabalho. Para os profissionais da área da saúde o cuidado precisa ser redobrado, dado que eles lidam com vidas, cuidam de outras pessoas e precisam se doar por inteiro naquela carreira que escolheram seguir. Torna-se nítido uma exaustão num cotidiano corrido e movimentado, e que muitas vezes acaba não sobrando tempo para uma rotina de autocuidado, mas compreende se que a saúde mental ocupa um pilar importante para um bom rendimento profissional.

A psicóloga Aleilsa de Lima, 38 anos, atende funcionários do hospital com base no fluxo de atendimento dos Serviços Especializados em Segurança e em Medicina do Trabalho (SESMT). Para ela, os cuidados com a saúde mental e física são essenciais para o desenvolvimento das habilidades no trabalho e o alcance dos resultados esperados. Aleilsa expôs algumas consequências geradas por essa “falta de cuidado” dos profissionais:

Transtorno de ansiedade;
Síndrome do pânico;
Depressão;
Abalar relacionamentos familiares e com colegas de trabalho, resultando em situações de tensão no ambiente.

A psicóloga hospitalar também deu algumas dicas para quem atua dentro do hospital:

Expressar seus sentimentos e pensamentos;
Manter uma rotina que relaxe o corpo e a mente;
Priorizar os momentos de lazer;
Sempre respeitar seus limites e não ultrapassá-los. 

Um estudo do Instituto Qualisa de Gestão recolheu dados que mostram a proporção em relação à Síndrome de Burnout, um distúrbio emocional que tem como sintomas a exaustão extrema, estresse e esgotamento físico. 

Dados:
79,03% dos enfermeiros relatam ter baixa realização profissional;
20,57% exaustão emocional;
24,13% despersonalização, sentimento de desconexão entre o corpo e pensamentos.

Dados relacionados aos profissionais da área de atendimento de urgência e emergência:
81,44% relatam ter baixa realização profissional; 
24,83% exaustão emocional;
30,16% despersonalização.

Aleilsa de Lima ressalta que a saúde mental no trabalho possui uma significância e precisa começar a ser falada e discutida nas empresas. Tanto os profissionais, quanto as pessoas próximas a eles são afetadas se o psicológico não está ocupando um lugar de relevância na vida pessoal. O autocuidado, o entendimento e a inteligência emocional para saber separar trabalho de vida pessoal, entender e respeitar os próprios limites, tirar um tempo para se cuidar e descansar a mente são recomendações essenciais para aqueles que frisam manter uma estabilidade mental e física.