Fotorreportagem sobre os desafios de uma família produtora em Campo Grande

As mãos que compram os alimentos e preparam as refeições nos lares campo-grandenses não são as mesmas que produzem, preparam a terra e colhem.

Estas mãos trabalham para prover o sustento de suas casas e garantir a alimentação de mais de 942 mil habitantes em Campo Grande (MS). A realidade da agricultura familiar na capital de Mato Grosso do Sul é árdua para as 25 comunidades de agricultura familiar. 

Uma delas é a Associação Pantanal, que reúne 30 famílias no Indubrasil, distrito que reúne agricultores e a produção industrial da cidade, às margens da BR-262.

Cada família conta com 10 hectares de terra – sendo dois destinados à reserva ambiental – e se empenha para produzir o alimento que atende à cidade. Idelbrando Coelho e Ana Cristina Coelho, pai e filha, são agricultores familiares em uma das propriedades da Associação, voltada à hidroponia.

O primeiro desafio de quem mora nas regiões de produção agrícola é o caminho de terra, sem iluminação, segurança e, no mínimo, a 10 km do primeiro asfalto de um bairro afastado do centro urbano. 

“A lei é bonita, mas feita por pessoas que não conhecem o campo. São as mesmas dificuldades desde o início”, diz Idelbrando que conquistou a chácara em 2001, com o Crédito Fundiário, que quitou em 2019. Hoje lhe falta saúde para colocar as mãos na terra. 

A filha, Ana, e seu marido, Renato, enfrentam o burnout da saúde pública. O casal se mudou para a chácara há sete anos com o filho pequeno e cuidam de Idelbrando e de toda a produção do terreno, hoje pautada em verduras hidropônicas, como alface, salsinha e agrião.

“Vim para ocupar a cabeça. Trocamos um carro pela estufa”, conta a enfermeira e produtora familiar. Com três estufas montadas, apenas duas funcionam, retrato dos altos custos de insumos e transporte dos produtos, além da correria de quem faz dupla jornada de trabalho. 

O cultivo hidropônico requer cuidados específicos, como a medição da temperatura da água Os substratos das plantas também são diferentes e seus valores foram agravados pela pandemia em quase 200%, levando muitos colegas de Ana a desistirem do cultivo. 

Com cerca de 10 mil pés de alface, coentro e salsinha plantados, cada muda é tratada individualmente. Além de controlar possíveis doenças, os agricultores conferem cada espaço de plantio para que a água flua corretamente e fazem a higienização. 

Ana também confere as raízes de cada muda ou pé desenvolvido, para controlar a qualidade da água, trabalho que é feito também pelo marido, que desistiu do cargo público para melhorar de vida e se dedicar em tempo integral à manutenção da chácara. 

O planejamento é fundamental para garantir o sustento da propriedade. Com o tempo médio de cultivo de 30 dias, enquanto parte é colhida, outra ainda maior já está germinando. 

Parte da produção da família de Ana é comprada pela Prefeitura de Campo Grande, por meio do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), um contrato firmado uma vez ao ano para atender instituições sociais. 

Mesmo incessante, a agricultura familiar é um remédio para a alma de quem viveu o estresse na rotina da saúde pública. O ambiente da plantação se mistura à casa e aos cuidados familiares. 

Apesar de prontas para consumo, as verduras aguardam na estufa, já que o transporte até a cidade é difícil. Não são todas as famílias que possuem carro utilitário e orçamento de gasolina suficiente para atender às diversas regiões da Capital.

A embalagem personalizada destaca o orgulho de Ana pelo produto que, além de ser entregue para a Prefeitura, chega a dois mercados da região. Ela ainda vende grande parte para outros produtores, que atendem redes atacadistas e precisam de mais pés de alface dos vizinhos para suprir a demanda. 

O produto final chega às mãos de quem irá preparar o alimento. Idelbrando e Ana seguem produzindo, junto com centenas de famílias, sonhando com mais assistência para os produtores e uma central de distribuição de alimentos para facilitar o transporte.

Fotos: Isabela Duarte

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