Foi na década de 80 que o Paulistano, que morava em Itaquera, Zona Leste do município de São Paulo, chegou a Campo Grande, estado de Mato Grosso do Sul. Foi também na cidade conhecida como Capital Morena que Cássio Rodrigues, após constituir família e se formar em contabilidade, descobriu na poesia um talento que até então era somente uma apreciação pessoal, inspirada nas músicas de grandes compositores da MPB, Rock Nacional e tantos outros artistas que trouxe em sua bagagem intelectual.

Em 2020, isolado em casa, como o resto de toda população mundial, o pai, gestor financeiro, consultor, contador, poeta e autor se desafiou a encontrar nos detalhes da natureza que o rodeavam, inspirações diárias nas quais, por meio de suas redes sociais, pudesse transmitir para seus amigos também isolados sua percepção poética do momento enfrentado por todos. Assim nasceu o Diário Poético da Quarentena, publicado em julho de 2020 após uma compilação desses insights vivenciados por Cássio.

P: De que forma você encontrou essa vocação para a escrita poética?

Eu sou um fruto da década de 80, onde nós tivemos o “boom” do rock brasileiro, tivemos grandes músicos e poetas como Renato Russo, Cazuza, Nando Reis, etc. e eu comecei a prestar atenção na letra desses caras, o que eles escreviam e isso foi meu primeiro encontro com a poesia. A poesia brasileira está muito ligada a música, temos muitos poetas musicais como Caetano Veloso e Chico Buarque. Eu sempre gostei muito de escrever, algumas épocas mais e outras menos e de um tempo para cá eu resolvi assumir este aprendizado esse caráter de poeta.

P: Você diria que o estado de Mato Grosso do Sul, com suas características turísticas, sociais e culturais tem influência sobre suas obras poéticas e literárias?

O meio urbano é a minha matéria prima de poesia, uma das minhas preferências poéticas é o Haikai, de origem japonesa, que foi incorporada na cultura brasileira por meio da Semana de Arte Moderna (1922), ganhou força na década de 1970 e hoje é uma das poesias mais produzidas no Brasil. E a poesia Haikai fala muito sobre a natureza em si, da natureza vislumbrada e não da natureza idealizada ou descritiva, então ela sempre fala de algo natural, que não está só na natureza, mas também está na nossa casa.

P: Seu primeiro livro publicado em formato de e-book, Diário Poético da Quarentena, retrata o cotidiano diante da quarentena imposta pela pandemia da COVID-19, sendo assim, além de muito atual, é um recorte da experiência da maioria das pessoas. O que te motivou a transformar em livro e compartilhar com o mundo sua relação com os dias de isolamento?

Eu escrevo de tudo nas minhas redes sociais, falo sobre política é meu canal de comunicação com o mundo, e me desafiei a escrever todos os dias uma observação poética sobre a quarentena e a pandemia, e comecei a colocar, sem pretensão de livro. Um dos poemas que eu acho mais bonito que está no livro, chamado “O menino e o vírus”, surgiu de uma caminhada que fiz com meu filho, eu fui andando com meu filho na rua e foi surgindo na minha cabeça. A idéia do e-book veio por conta do momento, em que isoladas, as pessoas não estão indo em livrarias comprar livros e algo poético sobre a quarentena, em formato digital, é uma forma de simbolizar e contextualizar o sentido da obra.

P: O livro Diário Poético da Quarentena conta com 47 poemas, quanto tempo você demorou em que estivesse com a obra pronta para publicar?

Eu me coloquei o desafio de estar inspirado em algum momento do dia para fazem um pequeno poema ou um poema maior. Às vezes saia um por dia, um a cada dois ou três dias e isso demorou em torno de uns dois meses até ter tudo formatado e compilado. O interessante desse trabalho é que eu não conheço pessoalmente a editora e nem a ilustradora, todo o processo foi feito virtualmente.

P: Sua poesia, por meio do projeto Poesia de Rua MS, esteve espalha por diversos pontos de Campo Grande como caixas de moto entregadores e outdoors. Como você caracteriza a importância da poesia espalhada pelos locais urbanos e a interação das pessoas com essa arte?

Para mim foi motivo de orgulho, esse projeto Poesia de Rua MS foi único em Mato Grosso do Sul, eu descobri sobre ele nas redes sociais por meio de um seguidor que acompanha meu trabalho e me mandou algo relacionado, foi onde entrei em contato e repassei algumas poesias minhas que acabaram sendo reproduzidas em outdoors e diversos outros locais da cidade. A história do moto-entregador foi interessante por que ele viu um Haikai meu e solicitou para que fosse reproduzido em sua caixa de transportar alimentos.

O mais legal de tudo é imaginar que alguém ta vendo meu poema dentro de um ônibus, ou ao parar no sinal. Eu imagino a pessoa parando e vendo o poema, talvez seja a coisa mais agradável para o poeta, o meu sonho é alguém pegar uma poesia minha e pichar em um muro.

Poesia de Cássio reproduzida em caixa de entrega de alimentos na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul. (foto: acervo pessoal)

P: Para finalizar esse papo interessante que tivemos, na sua biografia da rede social Facebook, você se define como “Consultor, contador e aprendiz de poeta”, sobre este último, na sua visão, qual a relevância desse aprendizado para a essência poética?

Alguns poetas mudaram minha forma de enxergar a vida e a arte, cito aqui Paulo Leminski, Mario Quintana e Caetano Veloso. Eles abriram o meu leque de possibilidades poéticas, de entender que a poesia pode ser feita de forma livre, no caso da arte em si, eu gosto de comparar com minha profissão, onde tudo é treino, tudo é aprendizado, se você quer ser um bom gestor de empresa, um bom consultor, um bom músico e um bom jornalista você tem que sempre aprender e se aprimorar, conhecer gente que faz aquilo bem. Eu me considero um aprendiz por que sempre estou buscando novos autores, novas formas de expressão artísticas, não para copiar, mas para buscar inspiração, que só flui com mais tranquilidade quando se conhece e não se abandona a técnica.